O que nos move?

Há duas semanas, uma pergunta simples me pegou de jeito: por que você dança? Embora ela seja curta e direta, a força foi tamanha que não consegui responder o que desejava, algo que eu realmente achasse “agora sim disse tudo”. Ou seja, fiquei confusa.

Então, resolvi descobrir. 

De início, fiz uma retrospectiva sobre a minha vida: encontrei a dança devido a problemas nos pés (que eram completamente para dentro e dificultavam minha andada e corrida). Ao invés de usar botas ortopédicas ou operar, o médico me passou um elástico para usar dos pés ao quadril quando estivesse em casa e disse à minha mãe: “experimente colocá-la no balé clássico, creio que será muito bom”.

Minha mãe saiu correndo atrás de academias de dança e, em minha primeira aula, me apaixonei. Comecei e nunca mais parei. A dança foi tomando conta de mim a tal ponto de não me ver mais sem ela, de sentir falta quando não faço, de pensar em movimentos quando ouço música (acompanhando a viagem sonora) e de ser mais feliz quando danço.

E com esse leve flashback da vida, me dei conta de que, na verdade, não importa nosso histórico na dança. Não importa há quanto tempo ou onde dançamos, mas o que nos estimula a dançar. Pina Bausch uma vez disse: “não importa como nos movemos, mas o que nos move“. E ela estava certa. Então, percebi que dança está em mim e a minha existência me estimula dançar. Alguns pintam, outros tocam instrumentos ou cantam e eu danço.

Em um mundo onde tudo é padronizado, cronometrado, rotineiro e todos fazem as mesmas coisas, a dança me permitiu criar a realidade paralela na qual eu desejava estar. Ai dançar, não parece haver exatidão nas horas, nem execução única. Existe apenas a vontade de se expressar no espaço encontrado e naquela fração de segundo ou minuto.

Não é à toa que a dança contemporânea é tão inspiradora para mim. Qualquer movimento pode ser dança: uma piscada de olho, uma virada de mão, uma andada no palco, uma levantada de braço, uma passada de mão nos cabelos. Tudo é movimento e não há certo ou errado. Existe apenas você e sua vontade de se mover e se expressar. Não há limites para o corpo, basta ele estar vivo e presente no ambiente.

Talvez a falta de limites, a liberdade e a singularidade sejam as razões pelas quais eu me mova através da dança e goste tanto de estimular nos outros essa mesma vontade. E, então, me dei conta de que, desde o início, eu já havia respondido tudo o que desejava com a tal pergunta instigante: eu danço porque eu sou eu quando eu danço. Não existe a pessoa que desejam que eu seja, não ajo como esperam que eu aja. Simplesmente sou eu. Eu me defino através da dança e por isso, sem ela, me sinto incompleta.

Então, liberte-se. Deixe o movimento fluir em você. A partir do momento em que perceber sua unicidade, que cada movimento é seu e que ele revela seus sentimentos e anseios, a dança ocorrerá naturalmente. Que a dança contemporânea esteja com você: libertária e verdadeira. Desejo que ela seja cada vez mais disseminada e incorporada nas academias, auxiliando no aprimoramento da consciência corporal e da movimentação, além de refletir na melhora da execução em outras categorias de dança.

E pra você: o que te move?

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